Já se imaginaram num campo cheio de frésias, lírios, alostromérias, tulipas, orquídeas, girassóis, helicôneas, gerberas, margaridas… já imaginaram os azuis, os rosas, os lilases, os verdes, os amarelos, os roxos e todas as outras cores que estão pelo meio, já imaginaram tudo isso? Visualizem…e ceguem! Conseguiram? Não, não é isso…não é só fechar os olhos; é cerrá-los com toda força que tiverem para não entrar um suspiro de luz que seja, não a deixem respirar sobre vós. Agora não cedam à tentação de andar devagar pé ante pé, ou até de gatinhar à procura do caminho menos acidentado, simplesmente deixem-se ser! Nem um passo para a esquerda, nem para a direita, nem para a frente, nem para trás: deixem-se estar ai e inspirem o mais fundo que puderem, encham os pulmões de ar e sustenham-no. Aproveitem!
Agora sentem-se, recolham uma flor e tentem identificá-la pelo seu cheiro, conseguem? Passem à seguinte e façam o mesmo…alguma diferença? O mais provável é que, apesar de notarem os diferentes aromas, não consigam associá-los a nenhuma flor em particular; isto acontece porque nunca o precisaram de fazer, porque têm sempre os olhos para ver se a flor é roxa ou vermelha, se é lisa ou côncava, se é arredondada ou bicuda, se é uma rosa ou uma margarida.
Se treinássemos mais este sentido que é tantas vezes menosprezado, será que a nossa percepção da realidade se alteraria drasticamente? Será que fugiríamos de muitos mais lugares por onde costumamos passar, será que nos cheirava muito mais vezes a esturro, será que cheiraríamos o medo à distância, será que cheirávamos a chuva quando esta ainda não anda por perto, tendo assim tempo para não sair de casa, ou para ir buscar o guarda-chuva, que tanta falta nos iria fazer? Já tentaram associar certos cheiros a pessoas que vos são próximas? Muito provavelmente as pessoas por quem nutrem um carinho mais especial cheiram a chocolate ou a baunilha, algum cheiro doce e agradável; enquanto que o vosso patrão, ou aquele tipo que não pára de vos chatear durante a viagem de autocarro para o trabalho cheira a bolas de naftalina, ou a toranja.
Nunca se esqueçam… absorvam, suguem, inspirem e expirem…o sumo da vida está no ar e é tão fácil de ser saboreado!
Conhecemos centenas de pessoas ao longo do nosso caminho, milhares de “olás” e beijos mecânicos que fluem tão facilmente como o respirar, mas quantas dessas pessoas realmente ficam na memória? Quantas realmente conseguem ganhar esse espaço, esse nicho nos recantos da mente? Quantas conseguem abrir as portas dos sonhos e instalarem-se nas nossas cabeças para lá ficarem para sempre? Quantas me conseguem tocar assim? Quantas conseguem sem tocar, tocar-me no coração?
Pego na guitarra e toco, toco no terraço, sinto o vento no corpo a embalar a música e a levá-la para longe, lá bem para cima, para perto das estrelas e da lua, para que eu possa tocá-las e senti-las em mim e, assim, reparo como o toque nos aproxima: como as memórias são cicatrizes em nós que, muitas vezes preferimos não curar – seja afecto, dor, sofrimento, alegria - queremos guardá-las e misturá-las com o frio que sentimos numa noite de Janeiro, ou com o calor de um solarengo Julho.
À medida que este turbilhão de ideias percorre os recônditos e sombrios cantos da minha cabeça, lembro-me também de como a falta de toque, ou melhor, a falta de tacto, nos pode deixar como um pássaro que partiu a asa e não se pode juntar aos seus; como uma planta sem a luz do sol, fonte de vida. De seguida, sou assaltado por imagens de crianças a gatinhar e apercebo-me da sua necessidade permanente de tocar em tudo o que os rodeia, seja para chamar a atenção, para fazer algum pedido, para protestar e…para reconhecer o seu mundo. O toque não passa de uma percepção mais concreta do que nos engloba. O toque é a absorção da realidade através da pele, é a osmose do universo que nos envolve, é a integração e aceitação da nossa existência “em” e “com”.
Vai na volta de tanto toque que nos toca e de tão tocados por quem gostaríamos de tocar, que só espero que o próximo toque seja o do telefone, com uma chamada daquela que tem o tacto que quero sentir na minha pele e o toque que quero sentir na minha alma.
Ouves? Quando falo contigo e te digo que preciso de ir cortar o cabelo – até porque não gostas quando ele começa a encaracolar nas pontas – o mais urgentemente possível; quando o teu chefe diz que a empresa é de todos e que todos retiram o mesmo lucro, porque a empresa funciona como um organismo vivo com vários componentes, mas com o mesmo objectivo; quando o miúdo te pede aquele boneco, com o dedo espetado no vidro da montra, prestes a rebentar num choro convulso cheio de gritos e pedidos desesperados; quando a tua mãe te pede para não levares aquela roupa com flores vermelhas, que para mim te fica a matar (mas o que é que eu percebo disso?), e levares antes o vestido azul cintado, com as mangas a três quartos, que o teu padrasto tanto adora ver e, coitadinho, que ele já está mais para lá do que para cá. Ouves? Não ouves.
Ouves? Quando digo que estás mais bonita do que nunca (não sei como o fazes mas hoje estás mais bonita do que ontem e ontem e ontem…) e que quero passar o resto da vida contigo; quando o teu chefe diz que vais receber um aumento, porque estiveste tão bem que és empregada do mês pela quarta vez consecutiva; quando o miúdo diz lá na escola que a mãe dele é a melhor e que como ela não há igual, pois não há bifes com ovo estrelado e batatas fritas como os dela; quando a tua mãe cheia de sorrisos e daquele carinho com que só ela te olha, pergunta se queres que te passe umas pecinhas de roupa que estás sempre tão ocupada, pobrezinha, trabalhas tanto! Ouves? Ai, como ouves.
Cada um ouve o que quer, ou o que lhe interessa, sobre o resto…ouvidos de mouco ou vozes de louco (que não chegam nem ao céu nem a lado nenhum) são o pão-nosso de todos os dias, e não é certamente por não gostarmos ou respeitarmos as pessoas que falam connosco, nada disso…simplesmente temos ou ouvido selectivo.
Por vezes pergunto-me: porque ouvimos, quando só devíamos escutar? É melhor ir para a mesa jantar que já me chamaste seis vezes e só agora é que ouvi.