Toque
Conhecemos centenas de pessoas ao longo do nosso caminho, milhares de “olás” e beijos mecânicos que fluem tão facilmente como o respirar, mas quantas dessas pessoas realmente ficam na memória? Quantas realmente conseguem ganhar esse espaço, esse nicho nos recantos da mente? Quantas conseguem abrir as portas dos sonhos e instalarem-se nas nossas cabeças para lá ficarem para sempre? Quantas me conseguem tocar assim? Quantas conseguem sem tocar, tocar-me no coração?
Pego na guitarra e toco, toco no terraço, sinto o vento no corpo a embalar a música e a levá-la para longe, lá bem para cima, para perto das estrelas e da lua, para que eu possa tocá-las e senti-las em mim e, assim, reparo como o toque nos aproxima: como as memórias são cicatrizes em nós que, muitas vezes preferimos não curar – seja afecto, dor, sofrimento, alegria - queremos guardá-las e misturá-las com o frio que sentimos numa noite de Janeiro, ou com o calor de um solarengo Julho.
À medida que este turbilhão de ideias percorre os recônditos e sombrios cantos da minha cabeça, lembro-me também de como a falta de toque, ou melhor, a falta de tacto, nos pode deixar como um pássaro que partiu a asa e não se pode juntar aos seus; como uma planta sem a luz do sol, fonte de vida. De seguida, sou assaltado por imagens de crianças a gatinhar e apercebo-me da sua necessidade permanente de tocar em tudo o que os rodeia, seja para chamar a atenção, para fazer algum pedido, para protestar e…para reconhecer o seu mundo. O toque não passa de uma percepção mais concreta do que nos engloba. O toque é a absorção da realidade através da pele, é a osmose do universo que nos envolve, é a integração e aceitação da nossa existência “em” e “com”.
Vai na volta de tanto toque que nos toca e de tão tocados por quem gostaríamos de tocar, que só espero que o próximo toque seja o do telefone, com uma chamada daquela que tem o tacto que quero sentir na minha pele e o toque que quero sentir na minha alma.